A série Andor, prequel de Rogue One em duas temporadas, enriquece o universo de Star Wars ao contar as origens não só do Capitão Cassian Andor, mas também da própria rebelião contra o Império.
Diferente de outros produtos Star Wars, a série é um misto de distopia, drama político e thriller de espionagem.
Ou seja, Andor é Star Wars para diversos gostos; e podemos dizer que é Star Wars até para quem não gosta de Star Wars. Mesmo uma pessoa que torça o nariz para duelos de sabre de luz, embate entre os lados da Força e outros ingredientes marcantes da saga pode gostar desta série.
O plot de Andor
Em Rogue One, um filme que já se diferencia dos episódios clássicos da franquia pela abordagem mais realista e pé no barro da guerra, somos apresentados a Cassian Andor, um capitão da Inteligência rebelde vivido por Diego Luna. Ele é um dos heróis que roubaram os planos da Estrela da Morte, um personagem complexo nas motivações e no modo de ser e agir, ajudando a encarnar uma guerra cheia de nuances.
Pois bem, a série Andor, lançada em 2022 no Disney+ e também estrelada por Diego Luna, conta a história de como Cassian se juntou à Resistência e, de quebra, mostra o surgimento da própria Aliança Rebelde.
Em 24 episódios divididos em duas temporadas (a segunda foi lançada só em 2025), a série relata a transformação de Cassian, de ladrão de peças imperiais alheio à política em devotado combatente contra a opressão da galáxia pelo regime de Palpatine.
Ao mesmo tempo, acompanhamos também o amadurecimento do movimento rebelde, de bolsões isolados de insurreição e de articulações entre lideranças aqui e ali até uma força militar organizada e capaz de enfrentar o Império de frente.
Andor também é uma série sobre a Banalidade do Mal
Talvez um dos maiores méritos de Andor (repetindo aquele que é o grande mérito de Rogue One) seja o de colocar o foco em como as pessoas simples, longe das grandes conspirações palacianas, fazem tudo acontecer. Para o bem e para o mal.
E, no caso da consolidação do poder do Império Galáctico, o cerne da série é mostrar como a opressão imperial acontecia não apenas pela ação malévola de Palpatine, mas pelo trabalho diligente e metódico dos burocratas e técnicos de todas as esferas.
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| Dedra Meero: o genocídio como tarefa banal |
A série Andor mostra um império construído a partir da base da pirâmide. Uma ditadura que se manifesta por meio de reles funcionários se apegando a seus micropoderes.
No dia a dia das gentes, nas distantes províncias espalhadas pela Galáxia, não é o Imperador que opera a máquina. É o vice-inspetor de Segurança de Morlana que tornou uma questão de honra encontrar e prender o desconhecido que matou dois agentes após um desentendimento de bar. É a supervisora do Bureau de Investigação que assumiu como missão de vida desbaratar o esquema de um atrevido contrabandista de peças roubadas de naves imperiais.
Na vida real, foi a pensadora Hannah Arendt quem, ao pesquisar e descrever a atuação dos burocratas nazistas na Segunda Guerra, cunhou a expressão “Banalidade do Mal” para se referir a isso. Na perspectiva da História, era um genocídio sendo perpetrado. Na visão de um diretor de campo, ele estava apenas cumprindo ordens e processando informações. Um insight assustador sobre como uma pessoa comum pode operar monstruosidades.
A série retrata, no lado dos vilões, dedicados servidores públicos como Dedra Meero (interpretada por Denise Gough) e Syril Karn (Kyle Soller) executando planos de dominação e controle social como se fossem apenas tarefas que contam pontos para subir na carreira e melhorar o currículo.
Na segunda temporada, o papel de Karn na trama é complexificado, quando ele é enganado pelo próprio Império para atuar na obliteração da Resistência de um planeta importante para o programa da Estrela da Morte.
Este é mais um elemento de realismo e verossimilhança que Andor agrega ao universo Star Wars: na série, vemos vilões que precisam prestar contas e divulgar balanços e notas oficiais. O Império não consegue aniquilar um povo sem antes criar uma narrativa que justifique a ação. Trata-se de um universo muito melhor construído que o de outros conteúdos da saga.
O heroísmo das pessoas comuns - muito além de Cassian Andor
Também do lado dos mocinhos, Andor é uma série que retrata a rebelião das pessoas comuns.
Os episódios de Star Wars tendiam a se focar nos Jedi, nos senadores, em um ou outro general ou piloto, no contrabandista Han Solo. Uma guerra feita por figurões ou por heróis clássicos.
Andor traz as pessoas comuns para o centro. São trabalhadores violados em sua dignidade diariamente, enfrentando os desmandos de uma máquina burocrática kafkiana.
Até acompanhamos o dia a dia da articulação da senadora Mon Mothma (interpretada por Genevieve O'Reilly), mas ela é apenas uma peça da engrenagem, e nem sequer a mais importante. E mesmo o papel da senadora de Chandrila envolve uma rotina de relações burocráticas e toda sorte de pequenos esquermas e acordos, retratando a formação da Aliança Rebelde de um jeito realista e pé no chão.
Uma outra coisa que "Andor" faz muito bem é mostrar o porquê da luta. Na série, vemos como, no seu projeto de usar os planetas, seus recursos e suas populações para executar seus planos de poder, o Império acendia no coração dos violentados a centelha da rebelião.
Não são apenas Mon Mothma e Bail Organa no Senado, não são apenas os almirantes, mas os mecânicos, os operários de estaleiros, pequenos contrabandistas, concierges de hotéis. Uma massa descontente que aprende, ao longo dos anos e pelos esforços de devotos abnegados da Causa, a canalizar essa fúria até torná-la um turbilhão irresistível de mudança.
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Andor termina mais ou menos onde Rogue One começa. Com Cassian Andor trabalhando para descobrir o grande segredo que o Império estava prestes a revelar do jeito mais aterrorizante.
No seu desfecho, a série cobriu 5 anos de aprendizado e luta de Cassian Andor, nos apresentou a personagens memoráveis (falaremos mais deles em um post próprio) e reforçou que rebeliões são fundamentadas na esperança.
Uma belíssima e imperdível série. Até para quem não gosta de Star Wars,


